*Religião

 

Se você necessita de religião para ter moral. Se não distingues entre o bem e o mal. O que te falta é empatia, não religião.

Se vc necessita de religião para ter moral. Se não distingues entre o bem e o mal. O que te falta é empatia, não religião.

Ler também: 13 Diferenças entre o Feminismo Libertário e o Feminismo Burgues

 

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*Jovens Negras do Brasil e a Transmissão Geracional do Racismo e da Desigualdade

O alto risco que se impõe diariamente sobre a vida das jovens mulheres negras aparece como uma condição que tem rebatimentos negativos diretos sobre a democracia brasileira, já que tal situação deve ser entendida como resultado histórico de condutas coletivas socialmente perversas.

Historicamente, a população juvenil brasileira tem enfrentado um quadro extremamente desfavorável no que tange à garantia de direitos. Contudo, a situação a que está confrontada a população juvenil feminina, negra e pobre, além de ser dramática, tem se tornado insustentável nos dias atuais.

O alto risco que se impõe diariamente sobre a vida das jovens mulheres negras aparece como uma condição que tem rebatimentos negativos diretos sobre a democracia brasileira, já que tal situação deve ser entendida como resultado histórico de condutas coletivas socialmente perversas. O fato de a sociedade e o Estado brasileiro terem abdicado da possibilidade de difundir uma nova cultura política junto com os movimentos sociais organizados, com vistas a impedir que seguidas gerações de mulheres negras fossem submetidas a antigos processos de violações de direitos, é também um dos fatores que conformam o atual quadro para esse segmento juvenil.

Diferentes dados estatísticos apontam a condição precária à qual as mulheres negras estão submetidas. Representando 25% do contingente feminino da população brasileira (Pnad/IBGE, 2011), elas possuem em média cinco anos a menos na expectativa de vida em relação às mulheres brancas.1 São ainda as negras que ocupam os postos de trabalho mais precarizados, formando mais de 60% do contingente alocado no trabalho doméstico. Também são elas as mulheres que mais morrem, atingindo um percentual de 48% a mais de mortes em relação às brancas, de acordo com o Mapa da Violência 2010.

Quando consideramos esses e outros dados por faixa etária, vemos que essa condição se agudiza. No que diz respeito ao atendimento à saúde, as mulheres negras entre 15 e 19 anos engravidam mais que as brancas na mesma faixa etária, com taxas de 14,1% e 8,8%, respectivamente.2 Estudo realizado por Janaina Aguiar3 mostra que, quanto mais jovem, escura e pobre, maiores as possibilidades de a mulher sofrer violência no parto. No que diz respeito à violência, é importante destacar que o número de homicídio de mulheres negras é maior entre aquelas de 15 a 19 anos, chegando a 11,5 em cada 100 mil contra 4,6 de brancas da mesma faixa etária.4

Outro problema que tem se agravado para as jovens negras é o aumento do encarceramento feminino. De acordo com o Ministério da Justiça, dois terços do total das mulheres presas no Brasil têm entre 18 e 34 anos, 45% são pretas ou pardas, 50% têm ensino fundamental incompleto e, de cada quinze mulheres presas, catorze são responsáveis pelo sustento da família. Tais dados, além de mostrarem que o perfil das mulheres presas no Brasil é formado majoritariamente por jovens e negras, nos alertam que esse grupo vem se tornando alvo de práticas criminalizantes contra as juventudes.

O quadro descrito, longe de nos levar a antever uma alternativa simples para seu enfrentamento, quer apontar para uma questão que ainda precisa ganhar maior visibilidade no Brasil: as meninas jovens, negras e de periferia estão tendo seus sonhos, aspirações e projetos de futuros estancados, silenciados, retirados ou distanciados do horizonte temporal de suas famílias e de suas comunidades. Dizer isso significa que, ainda que consideremos e esperemos transformações nesse quadro por meio dos canais participativos nacionais – conferências, audiências públicas, CPIs, denúncias – ou da judicialização internacional das violações dos direitos, o que falta à nossa democracia é reconhecer que o Brasil não tem acordo, pacto ou projeto substantivo que se contraponha à transmissão geracional do racismo e da desigualdade contra as jovens mulheres negras.

Ainda que não identifiquemos um silenciamento absoluto em torno das reais condições de vida das jovens mulheres negras, pobres e de periferia no país – em geral graças à ação das próprias mulheres e dos movimentos feministas, juvenis, étnico-raciais e de defesa dos direitos humanos, entre outros –, prevalece um cinismo sobre o que se pode esperar do futuro desse segmento juvenil, de suas reivindicações, das formas de manifestação e de resistência em curso e, principalmente, de suas agendas de luta e de desejos coletivos. Enfrentar esse cinismo pressupõe reconhecer que o racismo e os demais preconceitos caminham de mãos dadas com o autoritarismo e a desigualdade, que teimam em avançar sobre os direitos humanos. Pressupõe também explicitar que a discriminação racial e a desigualdade de gênero aprimoram a violência como método de controle dessa população e que a desigualdade econômica continuará ofertando às futuras gerações de jovens mulheres negras e pobres discriminação e desigualdade, para que nunca nos esqueçamos de nosso passado colonial. Esse moto-contínuo de nossa trajetória social contra as jovens mulheres negras pobres do país, no processo nada silencioso da transmissão geracional do racismo e da desigualdade, é o que devemos enfrentar.

Persistem e persistirão os muitos obstáculos, mas, apesar deles, as mulheres e suas organizações ampliaram sua consciência em relação ao futuro e têm procurado valorizar o acesso a direitos como educação e saúde. Conhecem mais seus direitos e estão dispostas a defendê-los. Para isso, necessitam contar com a força e o dinamismo de organizações, movimentos sociais e outras redes, fóruns e articulações do país no apoio a ações que visem enfrentar essa situação de invisibilidade em que vivem as jovens mulheres negras das periferias e, assim, estruturar as condições societárias e políticas necessárias para romper o ciclo da transmissão geracional das desigualdades e do racismo a que esse segmento social está submetido.

Contudo, são as mulheres negras que têm incorporado em seus discursos e perspectivas a priorização do combate ao racismo, questionando a lógica de desenvolvimento em curso e se contrapondo a ela. A Marcha das Mulheres Negras 2015, a acontecer no próximo dia 18 de novembro, em Brasília, traz o tema do combate ao racismo e à violência e pelo bem viver, por meio do entendimento de que o racismo é fator responsável pela persistência de metade da população brasileira em situação de desigualdade de condições socioeconômicas. Com isso, o que se quer é valorizar práticas de sobrevivência material e simbólica construídas por essa população, em especial as mulheres negras, como possibilidade de avançar em alternativas que transformem efetivamente o atual modo de vida e garantam, de fato, desenvolvimento com soberania e dignidade. Enfim, incidir coletivamente sobre as violações que atingem diretamente as jovens mulheres negras é contribuir para que essas desigualdades históricas sejam enfrentadas, tomando-se em conta também as gerações futuras.

*Rachel Barro é socióloga, doutorando na Uerj e educadora da Fase Rio ded Janeiro; Evanildo Barbosa da Silva é diretor da Fase, historiador e doutor em desenvolvimento urbano

[Publicado no especial Juventudes e desigualdade no urbano – novembro de 2015]


1    A pesquisa Retratos da Desigualdade, realizada pelo Ipea, mostra que no ano 2000 as mulheres negras esperavam viver 69,5 anos, enquanto as mulheres brancas, 73,8 anos.

2    Dados da pesquisa Estatísticas de Gênero – Uma análise dos Resultados do Censo Demográfico (IBGE, 2010).

3    Janaina Aguiar, Violência institucional em maternidades públicas: hostilidade ao invés de acolhimento como uma questão de gênero. Tese de doutorado. São Paulo, 2010. A mesma constatação pode ser encontrada na pesquisa Mulheres Brasileiras e Gênero nos Espaços Público e Privado, realizada pela Fundação Perseu Abramo e pelo Sesc.

Leia na íntegra: Jovens negras do Brasil e a transmissão geracional do racismo e da desigualdade

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*Lula da Silva: O Sentido Histórico de uma Condenação.

timing da condenação de Lula da Silva foi de relógio suíço. Deu-se após duas semanas do fracasso  da greve geral e enquanto o Senado aprovava, por larga maioria e sob o silêncio das ruas, assalto histórico aos direitos trabalhistas. Se milhões de trabalhadores tivessem descido às ruas, Sérgio Moro esperaria tempos melhores para acionar sua guilhotina e o Senado comportaria-se em forma diversa.  No frigir dos ovos, a condenação é parte de uma história muito mais ampla. É apenas a cereja do bolo que há anos é assado, tendo o imperialismo como doceiro e como auxiliares obedientes segmentos nacionais proprietários. Para compreensão mais ampla dos sucessos atuais, temos que nos debruçar sobre o passado.

A submissão plena do Brasil ao status de país semi-colonial, sob o tacão do capital mundial, impulsionada no último meio século, alcança hoje nível exacerbado. Nos anos 1930, o Brasil e outras nações das Américas viveram condições históricas propícias à  gênese de capitalismo autônomo, sob a hegemonia de classes burguesas nacionais, voltado ao mercado interno e apoiado nos trabalhadores fabris. No Brasil, esse movimento conheceu a oposição das classes agrário-exportadoras pré-capitalistas, vergadas naqueles anos.

Nos anos 1950, o processo de industrialização por substituição de importações motivara regressão do status semi-colonial  conhecido durante a Colônia [1532-1822], Império [1822-1889] e República Velha [1889-1930]. Ou seja, situação de autonomia política formal e submissão das decisões econômicas centrais ao capital externo. Após a II Guerra Mundial, acaudilhados pelo imperialismo, a agro-exportação, o frágil capital bancário nacional, as classes médias etc. mobilizavam-se contra aquele movimento, sem resultados imediatos.

Entretanto, naqueles anos, o processo de industrialização sustentado pelo capital  público e privado nacional , apoiado no mercado interno, entrou em crise, sobretudo devido à inconclusão da “revolução democrático-burguesa” , realizada em forma “passiva”, “fatiada” e “limitada”, com momentos altos na Revolução Abolicionista [1888], que unificou o mercado de trabalho, e na “Revolução de 1930”, que impulsionou a industrialização e a  construção do Estado-nação brasileiro. Para seguir no processo industrialista nacional, impunha-se reforma agrária radical; fortalecimento dos bancos públicos; construção de tecnologia nacional; universalização das leis trabalhistas; transição da exploração industrial extensiva à intensiva e aumento substancial dos salários, etc. Algumas medidas propostas, timidamente, pelas “Reformas de base” janguistas.

Tacão Imperialista

Nos anos 1960, a burguesia industrial nacional submeteu-se ao imperialismo, temendo o fortalecimento do mundo do trabalho com a aplicação das políticas necessárias à retomada do nacional-desenvolvimentismo, que as fortalecera. Mostrou plenamente sua incapacidade de acaudilhar a revolução democrática brasileira. Em 1º de abril de 1964, ela encontrava-se, toda, no bloco social que entregou o governo aos militares, inicialmente sob a hegemonia estadunidense, representada pelo governo ditatorial de Castelo Branco [1964-67].   O golpe, no Golpe, realizado pela entronização de Costa e Silva, em março de 1967, e dos ditadores seguintes, até 1985, expressou-se, no defenestramento dos liberais castelistas Octávio Gouveia de Bulhões e Roberto Campos, da direção da economia, substituídos por Delfim Neto, jovem economista, desenvolvimentista, representante da industria paulista.

A proposta inicial imperialista e udenista de privatização das empresas públicas e liberalização das importações cedeu lugar a uma forte expansão das estatais, do sistema bancário público, da tecnologia nacional e à reserva ao capital tupiniquim de novos ramos industriais – telefonia, informática, etc. A ordem militar retomou também o projeto getulista de parque militar e do armamento atômico, que resultou no rompimento do acordo militar, em 1977, com o governo USA. A grande ruptura com o projeto getulista foi o abandono da poupança e do mercado internos como sustentações do nacional-desenvolvimentismo.  Apoiando-se nas exportações e nos empréstimos internacionais na época baratos, a ditadura viabilizava a super-exploração dos trabalhadores, devido ao deslocamento do mercado interno como espaço primordial de realização [consumo] da produção interna. No nacional-desenvolvimentismo populista, a hegemonia [dominação] burguesa sobre os trabalhadores impunha o consenso [concordância-submissão] através de concessões e da repressão. Na ordem militar, a repressão tornava-se o pólo fortemente dominante.

Fim do Milagre

Em 1973-4, a crise mundial [“choque do petróleo”] inviabilizou o padrão desenvolvimentista autoritário. Os juros da dívida subiram às estrelas e o mercado consumidor mundial caiu em picada. Com a insolvência do Brasil, os militares cortaram os investimentos e impulsionaram a inflação e o “arrocho salarial”, para pagar a dívida externa. A nova situação alienou o apoio ao regime de importantes segmentos das classes médias e relançou a luta sindical, silenciada desde 1968.

No bloco social mobilizado pela “redemocratização” do país encontravam-se igualmente os segmentos do capital nacional e internacional “anti-estatistas” e sobretudo “privatistas” que se organizaram para abiscoitar, em condições excepcionais, as propriedades estatais construídas sobretudo nos anos getulistas e fortemente potenciadas durante o vintênio ditatorial.  Essas forças organizaram-se pela derrota das eleições diretas e, a seguir, por governos que impulsionassem suas exigências. Então, o imperialismo se apoiava no já poderoso sistema bancário nacional e em importantes núcleos da indústria, além do latifúndio, de decrescente importância.

A entronização presidencial de Collor de Melo, em março de 1990,  foi um falhaço, mesmo tendo alienado importantes bens estatais e avançado iniciativas antipopulares exigidas pelo grande capital. Ao contrário, os oito anos da era fernandina [01/1995-01/2003] foram um enorme sucesso. Após a privatização desenfreada, pouco sobrou das jóias da coroa, à excessão do Banco do Brasil, da Caixa Econômica Federal, do BNDS, da Petrobrás. Implementaram-se também importantes ataques aos direitos do mundo do trabalho e o redimensionamento da autonomia nacional. Sob a política de juros astronômicos, a dívida pública explodiu. Desmontou-se o ensaio de superação do status semi-colonial do Brasil, avançado pelo projeto popular desenvolvimentista, voltado ao mercado interno, de 1930-1950, com a subordinação do operariado industrial; e pelo desenvolvimentismo autoritário, dos anos 1967-85, voltado ao mercado mundial e apoiado na super-exploração dos trabalhadores. 2

Por primeira vez na história do Brasil contemporâneo, durante os governos de FHC, materializou-se a perda efetiva do controle das decisões econômicas centrais do país pelas classes dominantes nacionais em favor do grande capital mundial. Pedro Malan, como ministro da Fazenda, e Armínio Fraga, ex-funcionário do capital especulativo mundial, na presidência do Banco Central, circunscreveram essa realidade. No período Sarney-FHC, desmontou-se a reserva de mercado e as indústrias bélica e aeronáutica, assim como o projeto atômico da ditadura militar.

O Mundo do Trabalho em Busca de Seu Destino

Não é aqui o momento de discutir as raízes históricas, políticas, ideológicas, etc. da debilidade do movimento  operário, antes e após o Brasil se constituir como Estado-Nação. O fato é que os trabalhadores do Brasil jamais conseguiram transitar plenamente, como um todo ou em grande parte, da situação de “consciência em si” [surgida da existência material] para a de “consciência para si” [produto da organização e construção de programa próprio].

Os anos de mediados da década de 1970 foram exceção. No contexto da impulsão industrialista quando do “Milagre Brasileiro”, que fortaleceu sobretudo os trabalhadores metal-mecânicos, químicos, da construção civil e do sistema bancário, o mundo do trabalho, mobilizado na luta pela recomposição salarial,  ensaiou movimento autonômico político e sindical, que resultou na fundação do PT, tendencialmente anti-capitalista, em 1980, e da CUT, claramente classista, em 1983.

Pelos azares da sorte, os dois movimentos tiveram como símbolo nacional o nordestino Luis Inácio da Silva, o Lula, dirigente do Sindicato de Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema, principal pólo do confronto sindical com a ditadura, no final dos anos 1970. Quando despontou como liderança sindical, Lula da Silva tinha escassa formação política e jamais participara da luta contra a ditadura, apesar de já ter, em 1975, 30 anos. Nesse então, declarou-se anti-comunista. Décadas mais tarde, confessaria que jamais fora de esquerda e definiria-se liberal.

O momento de construção autonômica do mundo do trabalho, impulsionado pelas grandes lutas sindicais daqueles anos, dissolveu-se sob o impacto da crise econômica dos anos 1980 – “Década Perdida”; da explosão do desemprego e da inflação; da restruturação da economia e da produção, etc. Foi enorme o efeito do tsunami neo-liberal que materializou a derrota histórica mundial dos trabalhadores, precisamente enquanto o PT e a CUT se organizavam e se institucionalizavam.

Com a dissolução da URSS, em 1990, e dos países de economia nacionalizada e planejada, o ponteiro da história recuou dolorosamente e os trabalhadores, sob o açoite da derrota, passaram a literalmente desacreditar de seu programa para a resolução da crise social [“crise de subjetividade”.] Não era o proposto “fim da história”, mas a instalação plena de movimento de “contra-revolução permanente” que se mantém até hoje. Ele  se assanharia sem piedade contra os direitos nacionais e sociais de bilhões de cidadãos e trabalhadores através do mundo.

A proposta “fase heróica”, pura e dura, do Partido dos Trabalhadores, iniciou a dissolver-se, antes de consolidar-se. Sob a hegemonia de Lula da Silva e seu núcleo duro – José Dirceu, Antônio Palocci, Gilberto Carvalho, Luiz Gushiken, Marco Aurélio Garcia, etc. – impôs-se a hegemonia partidária dos parlamentares, profissionais, etc., reprimindo-se a organização pela base. A metamorfose apoiou-se em vastos setores da militância, do movimento sindical, da sociedade brasileira, desmoralizados pelo refluxo social ou que tinham – ou criam ter – o que ganhar com a colaboração com o capital. A adesão à proposta de gestão compassiva do capitalismo dominou a direção petista, seus parlamentares, administradores, etc.

Por longos anos, no contexto da orientação social-democrática e, logo, social-liberal, o PT manteve-se como referência de trabalhadores e assalariados, sob a pressão dos quais parlamentares petistas interromperam ou mitigaram ofensivas contra os direitos sociais. Porem, o PT administrou municípios e estados em sintonia com o capital e sem avançar qualquer iniciativa social estrutural. O PT anticapitalista foi pinto que morreu na casca do ovo. Igual colaboracionismo consolidou-se na CUT e foi facilitado pela defecção de sindicalistas classistas para fundarem “centrais” vermelhas ou partidárias.

Oferecendo a Mão

Com a desmoralização geral do segundo governo FHC, o grande capital aceitou a oferta do lulismo para assumir a presidência, avançar as políticas neoliberais e impor, devido ao prestígio-controle do movimento social, ataques aos direitos dos trabalhadores que Collor de Melo e FHC não tiveram a força de empreender. As promessas ao capital foram cumpridas caninamente, nas três e meia administrações do PT. Privatizações, desregulamentação, ataque à economia popular, arrocho salarial, alta remuneração e financiaento do capital, etc. As decisões econômicas centrais seguiram entregues ao grande capital mundial. Acordos draconianos foram firmados com o FMI.1

A submissão ao capital constituía caminhada sobre fio da navalha, já que ela ensejava perda crescente do apoio social que o petismo militava para controlar e desmobilizar. Devido a perda tendencial do apoio dos trabalhadores, o petismo procurou reconstituir nova base eleitoral. Contribuiu para a diluição da consciência social classista, promovendo estatisticamente os trabalhadores  à “classe média”; incentivou recorte  supra-social entre brancos/não-brancos, etc. Sobretudo, perseguiu o apoio eleitoral através de “políticas compensatórias” dirigidas aos setores mais atrasados da população, propostas pelo Banco Mundial.

A corrupção desbragada em que mergulharam milhares de petistas fez parte do deslizar social-liberal do partido. A evaporação da base militante e o novo padrão político-eleitoral exigiam campanhas cada vez mais caras, necessariamente financiadas pelo capital. Os serviços prestados ao capital permitiam igualmente fácil enriquecimento pessoal e a ilusão de que as classes dominantes teriam a mesma complacência com os serviçais petistas que sempre mostraram com a direita tradicional.

O grande capital e o imperialismo já retiraram o apoio à primeira administração de Dilma Rousseff [2011-14], na procura da imposição ao país presidente conservador puro-sangue e não mais terceirizado. As mobilizações de junho de 2013 liquidaram o mito do controle petista do movimento social. Portanto, o PT não prestava mais os serviços para que era pago. Entretanto,  a rejeição do colaboracionismo petista tinha raízes mais profundas e era fenômeno internacional.

O fim da bonança dos altos preços das commodities; o retorno da crise econômica mundial; a retomada da ofensiva imperialista geral contra o Irã, Líbia, Síria e, sobretudo, Rússia e China exigiam: uma submissão mais profunda ao imperialismo; a destruição das veleidades de núcleos capitalistas nacionais; maior super-exploração do trabalho; pagamento incondicional da dívida. O capital hegemônico mundial exigia salto de qualidade na reorganização semi-colonial  do país em desenvolvimento.

A estratégia escolhida foi a “revolução de veludo”, contra a “corrupção”. Ou seja, golpe não militar apoiado na mobilização das classes médias, inaugurado na Checoslováquia, em 1989, e, a seguir, em outras nações. Uma iniciativa viabilizada pela  crescente corrosão das condições de vida da população brasileira, que levava à exasperação classes médias agoniadas pela radicalização do “capitalismo social de mercado”, onde o Estado nada fornece, tudo se paga caro e o supérfluo se torna imprescindível: aluguel, previdência, condomínio, segurança, transporte, saúde, educação, telefonia, entretenimento, etc.

A Hora e a Vez de Dilma

Com a desmoralização da política, a Justiça transformou-se no grande instrumento da “revolução de veludo” anti-petista. Em agosto de 2012, o STF iniciou o julgamento de quase 38 réus inculpados de corrupção devido ao financiamento ilegal de parlamentares da base de sustentação do governo Lula da Silva – o “Mensalão”. O  sangramento quotidiano do PT pela mídia, agora com destaque para a Operação Lava Jato, estendeu-se até as eleições de outubro de 2014, com a esperada vitória do candidato do PSDB.

A condenação de José Dirceu sem provas, a partir de excrescência jurídica “ad hoc”, o “domínio do fato”, registrou o radicalismo da ofensiva conservadora associando o imperialismo, a Justiça, a mídia, o conservadorismo. Nessa abnormidade jurídica, o réu é condenado a partir da simples convicção subjetiva do juiz. Propõe-se que o réu, por sua posição funcional, tem necessariamente conhecimento e, portanto, responsabilidade em ato criminoso, mesmo que falta prova sobre essa relação. O paladino da operação, o juiz Joaquim Barbosa, santificado pela mídia, fora escolhido por Lula da Silva por ser negro.

A condenação do segundo homem do PT deu-se sem resistência do partido e do governo, ainda mais que ele competia com Lula da Silva no controle do aparato petista. Por sua vez, Dilma Rousseff tudo fez para separar a si e a sua administração da corrupção dos governos lulistas, esperando assim escapar da abate. Deixou que a Justiça e a polícia federal se assanhassem, primeiro, contra o PT e as administrações lulistas e, logo, contra sua administração e presidência.

Durante a campanha de 2014, exacerbadas pela mídia,  com destaque para o RJ-SP, sobretudo as classes médias realizaram manifestações multitudinárias contra o petismo, identificado como responsável de toda a corrução. Organizações como “Vem Para Rua”, “Movimento Brasil Livre”, “Não vou pagar o pato” foram treinadas e financiadas pelo grande capital, a partir de experiências golpistas sistematizadas em outra regiões do mundo.

O Sentido do Golpe

O golpismo não se mobilizava contra Dilma Rousseff, disposta a tudo  para salvar seu governo. Apoiado no parlamento, na polícia federal, na Justiça, na mídia, nos partidos conservadores, etc., ele buscava acelerar o arrasamento do país, segundo as exigências do grande capital e do imperialismo, quanto a gastos públicos, privatizações, leis trabalhistas, autonomia e política internacional, etc. Buscava salto de qualidade no processo de liquidação da autonomia nacional já em curso.

A ponta de lança da operação golpista era a criminalização do PT, então no governo – e visto ainda pela população como o partido de esquerda no Brasil. Em 17 de março de 2014, durante primeira gestão Rousseff, inaugurava-se, no Paraná, a Operação Lava Jato, inspirada na “Mãos Limpas” italiana, sob a liderança de jovens juízes conservadores. A estrela da operação, Sérgio Moro, estudara na Harvard Law School, em 1998, e fora treinado pelo Departamento de Estado dos USA. Inicialmente, a operação e o “Caçador de Corruptos”  conquistaram amplíssima simpatia, sobretudo entre as classes médias, por além de posições políticas, ao encarcerar ricos empresários, algo jamais visto no país.

Muito logo, a ação de Sérgio Moro e auxiliares revelou o caráter arbitrário, ilegal e politicamente orientado das investigações. Para alcançar seu objetivo precípuo, incriminar altos dirigentes petistas e, sobretudo, Lula da Silva, a Lava Jato vazou informações reservadas; grampeou a presidência da República e advogados de defesa; manteve suspeitos excelentes sob literal sequestro até obter as “delações” que lhe interessavam, “premiadas” a seguir com anistias de pena e devolução de bens.

A acusação de Lula da Silva mostrou-se operação difícil, já que, mais esperto que políticos petistas e da oposição, limitou-se a embolsar o régio pagamento de palestras encomendadas por grandes empresas, não raro por seu serviço de “garoto propaganda” das mesmas no exterior. Algo inaceitável para um líder operário mas legal e praticado habitualmente por políticos prestigiados, no Brasil e no exterior. E, não raro, pelos senhores juízes.

A insistência em defender, sem qualquer prova material, que um amplo apartamento de qualidade discutível [triplex de Guarujá] e um sítio em Atibaia, também pouco luxuoso,   como propriedades ocultas de Lula da Silva, levou  Sérgio Moro a forte descrédito, ainda mais quando vazou a corrupção explícita faraônica de políticos ligados ao golpe. O rigor para além da legalidade da Justiça com os petistas chocou-se também com a leniência quase total com criminosos explícitos conservadores.

A Serviço do Grande Capital

A Lava Jato centrou-se nas práticas ilegais de administradores de grandes empresas nacionais públicas e privadas, ensejando a imediata liliputização e promessa de privatização da Petrobrás, Caixa, BNDS etc. e desarticulação das grandes empreiteiras [Oldebrecht, Camargo Correio, Engevix, etc.], desacreditadas e obrigadas a pagar multas milionárias no Brasil e exterior.  O monopólio do mercado nacional e o dinamismo no exterior das mega-empreiteiras prejudicavam suas congêneres estadunidenses. A operação Lava Jato radicalizou a desnacionalização da produção brasileira impulsionada há décadas.

Desde o fim da ditadura, a população e os trabalhadores brasileiros vergam-se sob a pesada canga dos débitos públicos federais e estaduais e dos juros astronômicos que reduzem a nação a uma fazenda escravista produtora de superávites. Nas últimas décadas, a voraz desnacionalização da indústria brasileira acresceu também o encargo com as remessas de lucros, avultadas pelo pagamento de royaties devido à  dependência quase total do país ao exterior quanto à tecnologia.

A Oposição ao Golpe

O golpe objetivava construir nova base institucional, legal, etc. para salto de qualidade no status semi-colonial [neocolonial],. Mesmo quando o apoio ao presidente golpista se dissolveu de todo, com a instalação da recessão geral e o conhecimento da literal organização criminosa entronizada no governo, a nova ordem encontrou escassa resistência, com destaque para a classe trabalhadora, que jamais se mobilizou realmente contra o ataque geral aos seus direitos e à nação.

Sob o constante ataque da Justiça e da mídia, as direções petistas optaram pela moderação e pela tentativa de negociação, tentando salvar a pele e o aparato partidário. Para tal, sabotaram os esforços e ensaios gerais de mobilização popular. No geral, objetivos ao menos parcialmente alcançados, até agora, como veremos. Angustiada por sua impotência, a frágil oposição de esquerda, classista e marxista, denuncia o PT e a CUT pela atual falta de mobilização, em registro geral das ilusões não perdidas e da ignorância da “natureza do escorpião”.

Parte da esquerda auto-proclamada revolucionária, apoiou objetivamente o golpe, ao negá-lo, em alguns casos, por além do imaginável. Quando da condenação de 12 de julho, o MES, de Luciana Genro, defendeu retoricamente o direito do ex-presidente de participar nas eleições de 2018, elogiou a Lava Jato e lembrou que, se possivelmente o ex-presidente não merecia condenação pelo triplex de Guarujá, por faltas de provas, a mereceria pelo sítio de  Atibaia!  De tietas do Moro, terminaram em auxiliares da acusação!

Quanto ao PSTU, propôs que tudo é simples “disputa entre dois campos burgueses, […], em crise”. A culpa da condenação seria do próprio ex-presidente, por aliar-se à burguesia. Como desdobramento da negativa do golpe, nega igualmente o atual “estado de exceção”, e elogia indiretamente a Lava Jato, por encarcerar “meia dúzia de políticos e empresários”, quando antes apenas populares terminavam na prisão. Propôs o direito de Lula da Silva de – acredite quem quiser – “recorrer na justiça e se defender” e que os  trabalhadores, de “modo algum”, participem da sua defesa.

Em forma oportunista, o MES, o PSTU e outros grupos congêneres esperam recolher os cacos do prestígio sindical e eleitoral deixados pela destruição do PT. O restante, pouco importa. Porém, nos últimos meses, cresce a intenção de voto em Lula da Silva e a sustentação política e sindical do PT, ainda que em patamares acanhados em relação aos melhores anos do passado. Um apoio ao partido que pode crescer, se Lula da Silva for condenado em segunda instância, meses antes das eleições. Os desdobramentos de sua prisão são difíceis de prever.

O fortalecimento eleitoral relativo do PT moribundo é compreensível. No contexto da crise profunda, de semi-imobilidade dos trabalhadores e de refluxo do movimento social, importantes segmentos da população voltam-se, ainda que passivamente, para as organizações mesmo desacreditadas que já gozaram de sua confiança, quando de tempos melhores. Ainda mais quando da inexistência total de alternativas minimamente factíveis. É de se esperar, também, a adesão de boa parte do eleitorado – mesmo ex-petista –  em projetos eleitorais conservadores extra-partidários.

Ofensiva em Marcha

Até 2018, espera-se que o núcleo central das contra-reformas federais estará aprovado, com destaque para a da previdência privada. As instituições e a legislação repressivas de que dispõem as classes dominantes são amplas. Porém, impõe-se institucionalização que garanta a sustentação, atualização e extensão permanentes da ditadura do capital em todos os níveis da sociedade. É imprescindível uma profunda “reforma política”, talvez parcelada, garantindo ad eternum o conservadorismo do legislativo. A nova legislação eleitoral contará com “cláusula de barreira” mais rígida que afaste os “pequenos partidos” do jogo eleitoral, na procura tendencial do bi-partidarismo. Porém, a restrição da participação eleitoral e sindical aliena os importantes segmentos de “esquerda” conquistados pelas delícias do colaboracionismo com o Estado, fortalecendo necessariamente o pólo repressivo na imposição do consenso.

Há grande preocupação com o próximo presidente da República. O controle do governo federal é fundamental para a superação da atual fase de recessão-depressão da economia e para a expansão-consolidação da nova ordem em construção, com a transferência substancial do nível de decisão efetiva à esfera privada internacional. Almeja-se governo formal, com instituições “auto-sustentáveis” e “auto-deliberantes”, apoiadas na repressão da Justiça e da polícia, com as forças armadas transformadas em milícia interna.  Um processo em curso, em forma civilizada, em Portugal, Grécia, Itália, etc.

O nível de sucesso do projeto de barbarização social e instauração semi-colonial  radical no Brasil dependerá da capacidade de organização e resistência do mundo do trabalho e da população em geral. Movimentos que exigem, para realizar-se na medida necessária, a construção de direções e partidos classistas de massa conscientes, impossíveis de nascerem fora do impulso-reorganização do próprio movimento social e operário, extremamente fraco, como proposto. A confusão e perda de densidade da esquerda brasileira é abismal. Na reação necessária para vergar a ofensiva geral do grande capital, caso ela se realize, terão papel determinante eventuais vitórias, mesmo parciais, mas substanciais, da luta de classes no Brasil e no exterior.

Leia na íntegra: Lula da Silva: O Sentido Histórico de uma Condenação

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*Economia Solidária – Uma realidade

1. A economia solidária cresceu no Brasil e na América Latina em meio à resistência da classe trabalhadora a implementação do projeto neoliberal durante o final da década de 80 e, especialmente, durante os anos 90, período em que eram hegemônicos os governos alinhados com o neoliberalismo na América Latina.2. Diante do fechamento de fábricas, do crescimento das demissões, do empobrecimento no campo e na cidade, da flexibilização trabalhista e da diminuição do Estado, resultantes das políticas neoliberais, trabalhadoras e trabalhadores se auto-organizaram e por meio da economia solidária construíram saídas coletivas para estas situações.

3. Sob o manto da economia solidária, fábricas foram recuperadas pelos/as trabalhadores/as, cooperativas populares foram constituídas como alternativa de geração de trabalho e renda, bancos comunitários e fundos rotativos solidários ampliaram a oferta de crédito popular e o tema desenvolvimento local sustentável solidário ampliou seu espaço na pauta das organizações da sociedade civil e movimentos sociais. Considerando que essa situação atinge de forma diferenciada homens e mulheres, tendo em vista que com políticas neoliberais e a redução do estado sobram para as mulheres o cuidado com a saúde, educação e toda a sustentabilidade da vida humana.

4. No campo das políticas públicas, a economia solidária surgiu como resposta à crise social, ganhou espaço em governos democráticos e populares durante a década de 90 e início dos 2000 e assumiu status de política nacional com a chegada do PT no Governo Federal.5. Mais do que instrumento de combate a pobreza ou de geração de trabalho e renda, estas políticas tem cumprido importante papel no fortalecimento da organização econômica e social e na elevação da consciência de trabalhadores e trabalhadoras de diferentes regiões do país e também da América Latina.

6. A criação de políticas públicas de economia solidária no âmbito do Estado, que apóiam a auto-organização dos/as trabalhadores/as, representa a possibilidade de reequilibrar as condições de disputa de poder na sociedade, uma vez que o Estado foi o principal financiador do capital ao longo da história do Brasil.

7. A combinação entre políticas de democratização do Estado (orçamento participativo, conselhos, referendos, plebiscitos e espaços de participação direta dos cidadãos) e de democratização da economia (apoio estatal a organização coletiva do trabalho, preferência nas compras públicas para empreendimentos coletivos, ampliação do microcrédito, dos bancos comunitários, apoio a inovação tecnológica nestes empreendimentos etc.) é fundamental para a construção de uma América Latina soberana, justa, solidária e socialista.

8. Brasil, Venezuela, Colômbia, Chile, Uruguai, Argentina, Republica Dominicana, Equador, Peru e Bolívia já tem políticas públicas que reconhecem e apóiam a organização dos/as trabalhadores/as em empreendimentos econômicos solidários.

9. Este ambiente tem possibilitado uma maior integração dos/as militantes e trabalhadores/as da economia solidária na América Latina, o que permite construir pautas de luta comuns e fortalecer a organização de empreendimentos econômicos solidários nesta região.

10. No Brasil e em muitos países da América Latina a economia solidária vem se mostrando uma alternativa real de ampliação da participação dos/as trabalhadores/as na economia, trazendo a possibilidade de aproximar setores da classe trabalhadora que se encontram na chamada “economia formal” com a multidão de trabalhadores/as que se encontram na “economia informal”. O acumulo da economia feminista e abordagem da divisão sexual do trabalho, que tem evidenciado o trabalho doméstico e do cuidado como parte determinante e mantenedora de mão de obra e do bem viver e a consciência de necessidade de socialização do trabalho do cuidado com os homens e a sociedade como passos firmes rumo a superação do capitalismo.

11. Esta aproximação é fundamental para construção da unidade dos/as trabalhadores/as entorno de um projeto socialista que se apresente como saída para a crise internacional.

12. Esta crise trouxe de volta a cena políticas Keynesianistas, recolocando com força em debate o papel do Estado na condução de setores estratégicos da economia, bem como a sua função de regulação da economia e do mercado. Nesse contexto, abre-se espaço para uma ação mais ofensiva do Estado no sentido de ampliar a participação dos/as trabalhadores/as auto-organizados/as em empreendimentos econômicos solidários na economia do país.

13. Um outro elemento reforçado pela crise internacional é a compreensão de que embora seja fundamental a disputa e a conquista do Estado para a construção do socialismo, somente isso não é suficiente. Faz-se necessário também, além do fortalecimento das organizações sociais, a ampliação da participação dos/as trabalhadores/as na economia.

14. Só para exemplificar, em meio a crise, enquanto as empresas capitalistas demitem, mesmo contando com subsídios do Estado, as empresas geridas pelos/as trabalhadores/as no Brasil constroem coletivamente com seus trabalhadores/as soluções que permitem assegurar o trabalho de todos/as nos seus empreendimentos.

15. O Governo do Brasil tem inovado no enfrentamento a crise, protagonizando medidas que demonstram à sociedade brasileira o real papel que deve ser cumprido pelo Estado na organização e fortalecimento da economia de um país.

16. Estas medidas, que se sustentam principalmente na manutenção dos investimentos para o melhoramento da infra-estrutura do país (PAC) e na ampliação e melhora das condições para o acesso ao crédito, tem sido fundamentais para que a nossa economia não desabe, a exemplo de outras economias emergentes ou aquelas dos países considerados do primeiro mundo.

17. Mas sem prejuízo destas políticas, acreditamos que o Estado pode ousar ainda mais, tomando medidas que ampliem a participação dos/as trabalhadores/as organizados/as coletivamente na economia, o que, a longo prazo, contribuiria para melhorar a distribuição de renda e a desconcentração do capital no país e possibilitaria que os trabalhadores/as exercitassem práticas que constroem uma cultura socialista.

18. Nesse sentido, entendemos que as políticas de economia solidária devem ser consideradas como estratégicas na atuação da esquerda socialista frente ao Estado, devendo ter espaço e recursos que a permitam consolidar-se como instrumento de apoio a democratização da economia, pela atuação dos trabalhadores auto-organizados.

19. Acreditamos também que a economia solidária deve ser incorporada como estratégia de organização econômica por outras lutas que compõe a pauta de construção do socialismo, a exemplo do que já ocorre hoje com experiências que integram feminismo e economia solidária, etno-desenvolvimento e economia solidária, tecnologias livres e economia solidária, cultura e economia solidária, dentre outras.

20. Por ultimo, vale destacar que entendemos que a economia solidária não resolverá as mazelas da sociedade a partir da sua atuação isolada e tampouco é capaz de, sozinha, ofertar a resistência e a ofensividade necessárias a superação do capitalismo.

21. Desta forma, para nós a economia solidária é um projeto socialista que fortalece e possibilita a prática da autogestão pelos trabalhadores e trabalhadoras na economia e no conjunto da sociedade, e por isso deve estar presente na construção e no debate partidário, bem como deve estar integrada a luta geral da classe trabalhadora na sociedade.

Leia mais: Economia Solidária: uma estratégia de construção do socialismo

Extraído de http://economiasolidariaeagroenergiaparana.blogspot.com, Por Edson Leonardo Pilatti

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*A Epidemia de Heroína que se Estende Pelos Estados Unidos

Estados Unidos sofre uma epidemia de heroína e outros opiáceos produzidos por laboratórios e permitidos por lei quando requisitados por prescrição médica. Segundo autoridades, as mortes por overdoses (50.000 ao ano) superam as causadas por acidentes de trânsito.

  

 

O consumo de heroína se transformou em um grave problema de saúde que se expande por todo o espectro social, incluindo adolescentes e profissionais de classe média.

 

*As meninas más do Lar Seguro

Leia na íntegra:As meninas más do Lar Seguro

Pode-se dizer qualquer coisa. O que não se diz é o porquê da marginação.

Carolina Vásquez Araya*

Carol-800x500_cAs hipóteses mais descabeladas de  lábios das autoridades criam raízes profundas no imaginário coletivo, quer dizer, na muito volúvel e bem ponderada “opinião pública”. Isso acontece com as meninas queimadas no Lar Seguro Virgen de la Asunción, dependência estatal de acolhida a meninas, meninos e adolescentes com problemas de assistência y resguardo. Este Lar está a escassos quilômetros da capital da Guatemala e há quatro meses foi o cenário de um horrendo acontecimento que deixou mais de 40 meninas convertidas em cinzas, outras mutiladas, outras grávidas por violação, todas com a sua vida destroçada para sempre. Como em toda tragédia inexplicável, costuma-se aproveitar o poder – em qualquer de suas formas – para substituir versões, desqualificar as vítimas e reduzir o impacto negativo das más decisões emanadas por quem o tem. Assim tem sido ao longo da História e assim continuará sendo.

As meninas más do Lar Seguro1Para quem vê o touro da arquibancada é quase gratificante aceitar as versões oficiais, pois isso o exime de assumir posições incômodas. Se as meninas eram mal comportadas então o desenvolvimento dos acontecimentos era inevitável. Mal comportadas significa rebeldes, ariscas, soezes, desafiantes. Mal comportadas, ingratas e violentas ao se negarem a aceitar sua situação e pretender transformar as coisas. Mal comportadas no estilo das novelas de Charles Dickens, mal comportadas de acordo com os códigos de uma sociedade tão indiferente à sua condição como foi com respeito ao seu destino. Enfim, essas meninas más procuraram por isso.

A outra face do assunto é o cenário completo. Ou seja: o que levou essas criaturas que ao nascer eram uns anjinhos caídos do céu a se transformarem, supostamente, em produto descartável? Em que momento se produziu a metamorfose, se realmente houve alguma, e não estamos simplesmente assumindo o que não é?Ao buscar respostas estas convergem nas carências de sempre, produto da infame manipulação da riqueza para aumentar o capital de alguns poucos para privar a todos os demais das oportunidades de desenvolvimento que geraram com seu trabalho mal pago, tudo isso coroado pela incessante corrupção das classes política e econômica.

Nesse quadro costumeiro, passeia à vontade o crime organizado, que tem invadido todos os espaços e tem se beneficiado amplamente da inércia do Estado e da cidadania. Essas meninas más, que de acordo com a voz oficial estavam sob o cuidado de psicólogos e de pessoal especializado em cuidar meninas, meninos e adolescentes, não souberam agradecer tanto benefício e se amotinaram em um ato de inconcebível rebeldia. É claro que não se diz que entre esse pessoal especializado havia ex-militares treinados, havia aqueles que se aproveitavam do seu poder absoluto para abusar à vontade das meninas más, e ninguém nesse antro de horror era capaz de sentir a menor empatia por esses seres tristes e abandonados a uma sorte macabra.

O período da adolescência não é fácil. Não o é para as meninas e meninos nascidos em um ambiente apropriado, muito menos para aqueles que foram parar nas zonas marginais em um lar desintegrado e com todas as carências do catálogo. Não existe um só ser humano capaz de se conformar com a miséria sem se rebelar contra sua sorte. Tampouco existe um que aceite a violência como forma de vida sem tentar escapar dela.

A pretensão de acusar as meninas de mentirosas, afirmar que suas violações e gravidezes são imaginárias, negar a existência das redes de tráfico é abusar da paciência de quem possui um mínimo de senso comum e algo de capacidade de raciocínio. Essas meninas não nasceram para ser um produto gratuito para o comércio sexual; todas elas têm direitos e é obrigação da cidadania exigir que sejam respeitados.

ROMPE TEXTO: Não existe um só ser humano capaz de se conformar com a miséria e com a violência sem tentar sair dela.

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*Belas, Ricas e Casadas: O Desserviço da ‘Cultura das Princesas’

A existência de uma Escola de Princesas mostra como o estereótipo de feminilidade resiste e como investe-se na desigualdade de gênero

Todo sonho de menina é tornar-se uma princesa. Foi partindo desse pressuposto equivocado que a Escola de Princesas abriu suas portas em Uberlândia (MG) com a finalidade de, mais do que ensinar meninas de 4 a 15 anos a portar vestidos extravagantes e tiaras brilhantes, resguardar valores e princípios morais e sociais. Entre eles, boas maneiras e postura corporal, etiqueta à mesa, a importância da aparência pessoal, como se “guardar” para o príncipe e restaurar a moralidade do casamento.

Para o espanto geral, a proposta pitoresca convenceu famílias e se alastrou. Além da matriz, três outras unidades da Escola de Princesas funcionam no Brasil hoje; duas outras em Minas Gerais, nas cidades de Uberaba e Belo Horizonte, e a terceira em São Paulo, inaugurada por Silvia Abravanel, filha de Silvio Santos.

Desde que caiu na mídia, a existência das escolas é alvo de uma avalanche de críticas. “Como se já não bastasse todas as novelas, revistas e filmes, ainda temos que nos deparar com a institucionalização do que é o ideário de mulher em uma escola”, indigna-se a antropóloga Michele Escoura.

Autora da tese de mestrado Girando entre Princesas: performances e contornos de gênero em uma etnografia com crianças, a pesquisadora acredita que a “cultura das princesas” dissemina um estereótipo de feminilidade, reforçando desde a infância o que a menina precisa ser para ser feliz. “É uma visão excludente de felicidade porque nem todas se encaixam nesse padrão ou querem segui-lo. E quando o negam, sofrem repreensões sociais. Basta olhar para os comentários que fazem das mulheres que não são vaidosas ou que não querem casar”.

Em sua pesquisa, Michele analisou como as princesas da Disney influenciavam a visão de feminilidade de meninos e meninas da pré-escola e concluiu que, para as crianças, a mulher feliz, ideal, era aquela casada, com dinheiro e dentro de determinado padrão de beleza – jovem, branca, cabelos lisos e longos.

“Fiz parte da pesquisa em uma escola pública de periferia onde a maioria das meninas era negra e, quando brincavam de salão, falavam sempre em fazer chapinha e luzes. Isso é o mais nocivo, pois leva uma série de meninas a rejeitar o próprio corpo, a desenvolver uma baixa autoestima”, diz.

Para Hélio Deliberador, professor do departamento de Psicologia Social da PUC-SP, o fascínio que as princesas exercem sobre as crianças explica-se também pelo ângulo da fantasia, da imaginação, de sonhar com um mundo imaginário. “Essas histórias são recorrentes porque se renovam sempre. A indústria do entretenimento se aproveita desses símbolos para trazer sempre algo novo”.

No entanto, diz o psicólogo, uma instituição como a Escola de Princesas acaba afirmando um padrão estético hegemônico e afastando as meninas da realidade. “É uma visão que não corresponde mais à multiplicidade dos papéis de mulheres e homens. Faz uma divisão do papel feminino que perdeu o sentido e reforça um mundo fantasioso que não existe”.

A preocupação em moldar as meninas dentro de uma feminilidade adequada aos estereótipos de gênero, da subserviência, que visa o cerceamento ao espaço privado e das atividades domésticas não é nenhuma novidade, diz Amana Mattos, professora de Psicologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e pesquisadora na área de Infância, Juventude e Gênero. “Faz parte de nossa história educacional. Se você olhar, historicamente, alguns cursos de formação, em outros momentos, já tiveram quase que essa função, de dar uma profissão feminina, geralmente ligada ao cuidado, para a moça ter uma atividade até casar”.

Para a pesquisadora, a existência de uma instituição como a Escola de Princesas diz muito sobre o momento em que estamos vivendo, com o retrocesso da garantia de uma série de direitos. “Saiu uma pesquisa mostrando que o Brasil é um dos piores países do mundo para ser menina. Nesse cenário, ver uma notícia dessa é preocupante. Gênero e diversidades sexual estão sendo atacados nas escolas por conta da força da bancada conservadora, as políticas públicas em torno disso estão sendo desmontadas. O que essa escola está fazendo é investir na desigualdade de gênero”.

Mas como fugir da fase das princesas que, cedo ou tarde, acaba acometendo as meninas? Os especialistas concordam que não é possível criar os filhos dentro de uma bolha, imunes a esse tipo de influência, mas é possível buscar outras narrativas, desenhos, livros que abarquem outros modelos de feminilidade e masculinidade. “É preciso dialogar com o que está aí. Saber que dar uma boneca das princesas para a criança não é também aceitar o pacote completo. Faz parte do processo educativo refletir sobre essas questões com os filhos. E a escola é um lugar importantíssimo para isso”.

Michele acrescenta: “em si, não há nada de mau em aprender a organizar a casa e cozinhar, são noções práticas da vida cotidiana que dão autonomia. O problema de novo é restringir isso como responsabilidade só das meninas”

Princesas da Disney

O que é preciso para ser uma princesa? A antropóloga Michele Escoura fez essa pergunta para meninos e meninas de duas escolas públicas e uma particular do interior de São Paulo. As respostas dos 200 alunos de 5 anos reuniram as seguintes características: ser jovem, bonita, magra, possuir joias e vestidos e casar-se com um príncipe. O objetivo da pesquisa era entender como as princesas de duas animações da Disney influenciavam a visão de feminilidade de meninos e meninas da pré-escola.

Ler mais:

O desserviço da ‘cultura das princesas’

Filmes infantis perpetuam estereótipos sociais e de gênero

Belas, ricas e casadas

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