*“O NAVIO DOS INSENSATOS” O mestre remava contra a maré – Por villorblue

’Stamos em pleno mar
Era um sonho dantesco… o tombadilho,
NAVIO NEGREIRO – CASTRO ALVES

Ficção

A embarcação:
Da popa a proa o navio media quase cinquenta metros, tendo
aproximadamente 18 metros de largura. Ao observar seu calado,
poderíamos pensar que a nau, não fora construída para navegar em águas
profundas, deslizava serenamente para o tipo de carga transportada.

À distancia, ninguém poderia imaginar que aquela embarcação
transportava pessoas, o numero de canhões denotava não tratar-se de um
galeão, portava apenas quatro canhões a bombordo e quatro canhões a
estibordo. Visto do convés era um navio normal, porém apenas nos porões
era possível entendermos a verdadeira natureza de seu transporte,
comportava perto a duzentas celas com pouco menos de 1,5 metro cúbico
cada, eram seis series de celas com corredores intercalados, o fedor de
excrementos humanos era insuportável.

-O navio era esperado no porto da próspera Hertogenbosch, na
localização mais setentrional da província de Brabante do Norte, em
meados de 1461.-

stultífera navis
(A Nau dos Insensatos de 1494, [Stultifera Navis] do humanista Sebastian Brant [em dimensões modificadas].)

Infância:

O carroção que levava pai e filho entrara no Binnenstad, agora avistara o
paço onde se erguia o imponente De Moriaan, havia uma multiformidade
na arquitetura. Adiante o garoto avistou as torres da catedral de São João
Evangelista, imponente, gótica, com suas gárgulas e arcobotantes
impressionáveis. Gostava quando o pai fazia aquele caminho, observava
tudo isso com o olhar deliciado. O destino era o pequeno porto as margens
do Dommel, onde iriam retirar uma mercadoria para o armazém da família.
Sabia que estavam próximos ao ancoradouro, o cheiro do Dommel
expandia no ar, impregnava tudo.
Entraram na Vughterstraat, o pai olhou para o garoto e disse, Jeroen
estamos quase a chegar.
O pequeno esboçou um sorriso, sabia que estavam próximos, fizera
aquele caminho varias vezes.
A uns oitenta metros adiante entrariam em uma rua a direita, após um
suave declive de uns duzentos metros, chegariam a pequena doca.
A carroça entrou na estreita via, a rua tinha uma paisagem peculiar, era
diferente de outras passagens da cidade. Calçada de pedras, estreita, dos
dois lados haviam casarões e armazéns, uma movimentação anormal de
pessoas, fria, úmida.
Avistaram o rio, as rédeas da carroça foram puxadas para direita pelos
fortes braços do pai, movimentaram-se numa especie de meia lua. A uns
cinquenta metros viu crescer um baluarte, o pai puxou as rédeas para traz,
os cavalos pararam em frente ao pequeno ancoradouro. Jeroen, espere um
pouco, já volto. O menino sinalizou positivamente com a cabeça, o pai
desceu do carroção e entrou na enorme porta de madeira do armazém. O
garoto focou o olhar no Dommel, admirando suas águas calmas, o rio o
hipnotizava.
Estava absorvido pela imagem do rio, quando gritos desviaram sua
atenção.
Olhou na direção de onde vinha o clamor e avistou um carroção fechado,
de aparência fúnebre, havia no veiculo duas pequenas frestas de cada lado,
tinha a cor do betume e apenas uma porta atrás que se aferrolhava por fora.
Chamava atenção eram os gritos, pessoas em seu interior gritavam e
imploravam para não ir. Mas…ir para onde? Quem estaria sendo
transportado daquela forma?
Saltou, correu naquela direção, notou que haviam algumas pessoas
confinadas no soturno veiculo, uma multidão acercara-se do carroção e
gritavam, bradavam, riam. Como resposta, as pessoas aprisionadas
gritavam mais ainda, como a querer tentar alguma coisa que as libertassem.
Enfiavam as mãos pelos pequenos vãos e tentavam rasgar a blindagem
externa de madeira com as próprias unhas, tendo como consequência o
sangramento de seus dedos. Aquela cena lhe impressionara e influenciaria
sua obra definitivamente.
O garoto estava numa espécie de choque, sem entender porque aquelas
pessoas estavam presas, numa situação pior do que a de alguns animais.
Boquiaberto, ficara ali parado, aqueles gritos, as pessoas a rir. Sentiu uma
mão em seu ombro, Jeroen venha, disse-lhe o pai, vamos para casa.
Pai porque estas pessoas estão assim? Porque estão presas desta forma?
Infelizmente Jeroen, aquelas pessoas são o que os hipócritas chamam de
pessoas baníveis, alienados, viciados em jogos, andarilhos, melancólicos,
afinal, os desvalidos. A hipocrisia os separam, os diagnosticam como
loucos, os trazem até o pequeno cais, os embarcam naquela pequena
embarcação ancorada, (Jeroen olhou na direção indicada e viu uma
pequena embarcação de uns 15 metros ), os levam até o grande porto. No
grande porto eles são colocados em um navio, e de lá, dizem, seguem para
a ilha “Narragônia”, onde são isolados até morrer. Nas cidades não tem
mais lugar para pessoas que não produzem, são novos tempos.
Pai, como o homem pode entender outro ser humano se não consegue
entender a si próprio? Outra hora eu te explico isso melhor filho.
Vagarosamente seu pai o afastou do local, porém os gritos e as cenas de
terror impressionavam. A insensatez humana, suas barbáries, a corrupção,
maldade, a tirania e os suplícios, as masmorras e seus presos, as orgias
alimentares que se dispunham a nobreza, a igreja e a burguesia que ora
aflorava. Tudo isto (em paralelo com a fome e a decadência material em
que o povo vivia), faria parte do seu pensamento daquela hora em diante.

O crescimento:

O garoto cresceu aprendendo a pintar com o tio e o pai no atelier da família, ainda
pequeno mostrava-se um grande colorista e um exímio desenhista, era
dono de um refinado conhecimento pictórico, as cores de seus quadros
eram delicadas, justapostas equilibradamente. Gostava da grande escola,
apesar da ‘escola Gótica’ estar caindo em desuso naqueles anos. O Gótico
provia-lhe de uma certa liberdade de expressão, (atualmente o definimos
como “gótico tardio”). Ele não tinha muita consideração para modismos,
importava-se com o interior de sua alma e o das pessoas, o que o
preocupava era a degeneração dos verdadeiros valores. Desconsiderava
nomes como, Da Vinci-1452, Michelangelo-1475, Rafael-1483, etc, eram
donos de uma técnica perfeita, porém eles não os influenciava, valorizava o
humano e o quanto aquele sistema lhes causava sofrimento.

Da clausura ao mercantilismo:

No século XIV a Europa encontrava-se fechada, este enclausuramento
acontece por motivos político/militares, isso fez com que a sociedade fosse
dominada progressivamente por instituições políticas centralizadas.
Originaram os burgos, com a figura de seus burgo mestres (hoje em dia
prefeitos), e o fortalecimento de economias urbanas (mercantis, iniciando uma jornada à formação do capitalismo ), também surgindo algumas organizações de trabalhadores. Por este motivo os mestres artesãos começaram a entrar em evidencia como classe.
O sistema produtivo desenvolvendo-se, fez proliferar as manufaturas.
Entraram no sistema manufatureiro as cerâmicas (azulejo, porcelana,
olaria), faiança, movelaria, selaria (selas, carruagens), armas, etc..
Esta clausura forçada na Europa, também levou ao desenvolvimento do
“mecenato” nas artes e na educação, e a uma remodelação no sistema
produtivo, cultural, educacional e jurídico.
Da Itália difundia-se uma grande escola, que séculos após
denominaríamos “Renascimento”.

Alguns fatos históricos;

Alguns fatos históricos relacionados às grandes mudanças na Europa no
século XV; Os portugueses conquistaram Ceuta em 1415; com uma pequena barca
Gil Eanes dobrou o Cabo Bojador em 1434; a tomada de Constantinopla em 1453;
viajem de Colombo às Américas em 1492 e Vasco da Gama à Índia em 1498. Como
podemos notar, são fatores puramente mercantilistas e imperialistas, e hoje
entendemos que o mercantilismo simboliza o alvorecer da globalização, (o
mercantilismo é de caráter exclusivamente globalizante). A tecnologia
usada para dar suporte as empreitadas, (bússola, pólvora, astrolábio,
construção de navios maiores e fortalecidos como caravelas e os galeões),
o homem não dependia tanto da natureza para suas aventuras.
Esta aventura toda ao “desconhecido”, transformara-se numa via de mão
dupla ou tripla, exportavam as manufaturas produzidas, e traziam ouro,
pedras preciosas, iguarias, temperos, e… escravos, estes últimos eram
capturados inicialmente pelos portugueses. A principio em Benim, depois
em algumas regiões do Niger. Com o tempo o trafico de pessoas foi-se
estabelecendo em (por) varias nações e portos, Guiné, Angola, Congo, Benguela,
Moçambique e outros. Tudo isso sobre os olhares e concordância da igreja,
como fica demonstrado na bula pontifícia Romanus Pontifex de Nicolau V
em 1455. Este documento papal, além de outras permissões, concedeu aos
monarcas portugueses a propriedade das terras e mares descobertos até o
momento e de ‘ora avante’.

O consumismo global:

Quatrocentos, quinhentos anos após o inicio desta “aventura humana” (se
é que podemos chamar assim), ficou consolidado o discurso do
“consumismo global”, desembocando no que a sociologia denomina hoje
em dia como, “homogeneização cultural”. Sobre este assunto
procuraremos discorrer em outra ocasião, onde também falaremos sobre a;
substituição de valores éticos por abjeções generalizadas e emoções
baratas e vulgares” e a sociedade líquida desenvolvida por ‘Bauman’.

A construção do humano:

Se levarmos em consideração a evolução da escola Renascentista e o
sucesso material dos seus pintores, Jeroen teria muitos motivos para se
tornar um adepto da Renascença, porém, aquela imagem de infância (no
pequeno ancoradouro no Dommel) jamais o abandonara. Ainda cedo, em
seus esboços no atelier do tio Jean, chegara a projetar alguns trabalhos
tendo como tema o sofrimento humano, porem, era a idade media, o índex
e a inquisição corriam sem freios. Os Van Aken tinham uma certa tradição
e poder na região, mesmo assim esta tradição não os protegeria das
perseguições que aconteciam por toda a Europa e poderiam acontecer com
eles. As perseguições aconteciam por conta da nobreza que perdia parte do
seu poder, e da burguesia que florescia e aumentava o seu poder a cada dia,
uma verdadeira queda de braços. E quem pagava? Quem pagava era
evidente; o povo.
Sendo um grande risco ficar entre uma classe e outra, seguiu os
conselhos do pai e do tio Jean, intercalava sua produção artística com
temas religiosos. nunca datando ou documentando as obras que faziam
criticas, ou satirizavam a igreja ou as classes dominantes, (burguesia e
nobreza). Uma “coincidência” interessante, os primeiros passos da
Renascença deram-se na Itália, por consequência, o mesmo pais sede da
igreja católica promotora das cruzadas, do índex e da inquisição.
O garoto cresceu e adquiriu o nome artístico de Hyeronymus Bosch,
alguns o chamavam de El Bosco. Para continuar produzindo mais
“tranquilamente”, aceitava e intercalava encomendas de obras com cenas e
personagens religiosos, para a igreja e a nobreza. Os historiadores
catalogam estas obras como de sua primeira fase. Como ele não datava
suas obras, indago-me qual obra teria sido criada primeiro, a tela de Bosch
(A nau dos insensatos) ou o poema de Brant de 1494, (paradoxalmente à
tese da maioria dos historiadores), ou uma desconhecia a outra.
Em suas obras mais relevantes, nota-se um grande grau de conhecimento
dos princípios alquimicos e da natureza da alma, (exemplos; em Jardim
das Delicias nota-se a presença do albeto “donzela branca” e nigreto
“donzela negra” [lado a lado], cadinhos herméticos, lótus, hermafroditas,
o mocho, etc.). Para muitos Bosch é o primeiro e mais importante artista
fantástico. Beberam da sua fonte criativa, Dali (sobre caráter fantástico,
onírico), Goya (serie “Caprichos” sobre critica social , serie
“Disparates” sobre caráter onírico), Brueghel (sobre tratamento da
morte, “O quartier Bruegel”, “A parábola do cego”), e muitos outros.

A nau dos insensatos:

Especificamente, nos afastando dos primórdios quase ficcionais deste
preâmbulo, seria bom falarmos sobre varias obras de Bosch. Como o meu
objetivo seria discorrer um pouco sobre este grande mestre flamengo, e não
ficar apenas na exposição de datas, (lá se vão algumas paginas),
comentarei sobre esta obra em especifico, “A Nau Dos Insensatos”. Escolhi
esta pintura, por acreditar ser uma das que melhor define o conjunto da
obra de Bosch e olha que a minha preferida é o “Jardim Das Delicias”,
sendo o “Jardim das Delicias” uma das mais ricas e completa em toda
simbologia. Em Estrada da Vida, verificamos o mestre, denunciando toda a
devassidão humana representada por, soldados roubando viajantes
(configuração do poder), escada que leva a nada, (poder pelo poder),
corvos sobre restos humanos, promiscuidade… . Boa parte das telas de
Bosch é rica em denuncias à insensatez humana. Os verdadeiros insensatos
são aqueles que detêm qualquer tipo de poder, utilizam o poder ao bel
prazer, fazem deste poder o que bem entendem, se apoderam do corpo e da
alma das pessoas, do seu tempo e espaço, sufocando-as. Ai reside a
verdadeira loucura. Sua obra denunciava a bestialidade humana, (por isso
são saturadas de figuras híbridas). Sendo assim podemos pensar que toda
humanidade esta doente, ou adoecendo. Toda humanidade esta a bordo da
nau dos loucos como dizia Sebastian Brant no poema “A Nau dos
Insensatos” (Das Narrenschiff 1494) ou Erasmo de Roterdã em (Elogio da
Loucura 1509).
Ao centralizarmos melhor a obra de El Bosco “A Nau dos Insensatos”,
temos a sensação e constatamos que o seu verdadeiro valor não esta apenas
no pictórico, ou um pouco distante do binômio do bem-mal, ou bom-mau,
difundido a partir da primeira carta de Pedro, (esta carta, legou toda uma
discussão especifica filosófica à posterioridade), esta obra é carregada de
uma simbologia própria, e não conseguimos estuda-la a contento com os
olhos de uma critica excludente.
No mastro da embarcação, a flamula longuilinea aponta em direção à proa
do barco, numa indicação de que a “nave” (fig.), navega de vento em popa,
isso podemos entender como argumento discernente, uma realidade
constatada, imutável. Esta flamula nos deixa algumas pistas a mais, pode
se tratar de um galhardete. Como na obra não vemos uma figura em traje
militar, nos resta duas opções, tratar-se de um navio mercante, ou de
passageiros, ou os dois casos (mercante/passageiro, vai com mercadorias e
retorna com pessoas). Se for um navio mercante refere-se a loucura desta
aventura humana ao desconhecido/conhecido, (esta aventura será
responsável por descentrar o sujeito cartesiano na modernidade tardia),
sendo assim, esta em consenso com a armada. Tratando-se exclusivamente
de passageiro seria uma triste consequência desta aventura, (apenas
deportar). Pode ainda ser o navio comando de toda esta tragédia por qual
passava a humanidade, (o galhardete indicaria ser a nau de comando),
sendo assim; os lideres estão loucos, toda humanidade os seguem nesta
insanidade.
Estabelecendo alguns parâmetros sobre a nau e seu movimento na cena,
veremos outras representações:

a nau dos insensatos

A figura do ‘timoneiro’ de toda esta insensatez, faz parte do banquete
insano/orgiástico ao qual participam todos os componentes, apesar de se
encontrar na popa, ele tem a mesma expressão dos que estão à mesa,
porem, ao lado direito do timoneiro existe outra figura idêntica ao
‘governante do timão’. Neste outro elemento, a mão esquerda não segura
leme algum, ela aponta para o auto ao fundo, a indicar um homem em meio
a alguns arbustos, tentando com certa dificuldade conseguir algum
alimento, (ou outro motivo), numa clara alusão ao discurso da classe
dominante. Este alimento aparece em excesso na “nave” caindo do auto
como manah, na mesa, toda esta orgia é regada a muito vinho, garrafões e
barril (Seria um barril de pólvora?) espalhados por toda parte,
acompanhando este louco regozijo, musica, cortesãs, irracionalismo,
insanidade.
Na popa, um dos integrantes pratica um ato bulímico. Na proa uma
cortesã põe-se a servir vinho para um personagem caído, provavelmente
por excessos, por isso o garrafão que segura esta mergulhado na água,
seguro por um colar de contas, como a refrescar a bebida. Em um galho,
simbolizando o castelo de popa, um bufão bebe dando as costas a toda esta
cena, enfastiado. Como a nos indicar a falta de sátira e graça, (talvez como
“Dom Bibas” a tramar contra o castelo de Guimarães, talvez como
“Hilarião” suicidando-se de tanto comer e beber), algo o bufo esta a
tramar.
Em primeiro plano, na água, dois ‘descamisados’. O da esquerda com uma
vasilha, em posição de pedir alguma migalha, ou tentando aparar o que cai
da mesa, contempla a tudo e a todos com o olhar de ser inferior, olhando
para o alto como a ver divindades. O descamisado da direita observa a tudo
com uma certa complacência, talvez com a intenção de conseguir um lugar
ao barco, ou também se servir de alguma migalha caída. Os dois, sem
expressão de revolta, docilmente, a tudo contemplam, (A apatia das
massas indignava Bosch ).
Pode-se observar na nau, três classes distintas, são elas: Artesãos,
(timoneiro e dono do discurso). Nobreza, (bulímico à popa e ao meio dos
artesãos). E igreja, (de veste cinza a mesa e a mulher em frente deste, com
o instrumento musical). Uma cortesã “toda favores”, atende ao homem
caído dando-lhe vinho. Observamos um crânio com feições de um mocho,
no que sugere ser o topo do mastro, a carcaça da ave (Alimento?) presa ao
mastro, esta envolta em alguns ramos, estes ramos dão-nos vazão a uma
gama de interpretações. Para entende-los teríamos que contar com a ajuda
da história e outras ciências, isso seria impraticável em pouco espaço. Uma
botija virada, a derramar um liquido infindo num terceiro plano a esquerda.
Ampliando a imagem podemos ver no galhardete alguns símbolos
(podemos usar o método critico-paranóico [idem Dali] para isso), o
arbusto que aloja ou camufla o crânio com forma de mocho esta num plano
mais a frente, solto, como um sentinela a nos indicar alguns caminhos.

Pensar a obra:

Como bem vemos, existem vários caminhos, e muitas possibilidades.
Vários métodos podemos usar para pensarmos uma obra deste peso,
independente do que diz o voluntarismo, os formalistas, o emocionalismo,
o intelectualismo, o intuicionismo, os organicistas, etc. Vejamos o que nos
diz D. Parker sobre as limitações da critica da estética, tradicional,
simplória e excludente, ele insiste na necessidade de uma definição
complexa ao invés de uma simples, *neste ponto a Filosofia da Arte
deveria se aprofundar. “A suposição subjacente de toda a teoria da arte é a
existência de uma natureza comum presente em todos as artes. Todas as tão
populares e breves definições de arte (forma significante, expressão, intuição,
prazer objetivado, *ou mesmo equilíbrio, composição, perspectiva, etc.), são
falaciosas, ou porque se verificam no caso da arte, mas também em muitas outras
coisas que não são arte, e assim falham em diferenciar a arte das outras coisas,
ou então porque negligenciam algum aspecto essencial da arte. A definição de
arte deve assim ser formulada em termos de um complexo de características.
*grifos e inserções do autor.

Opinião de estudiosos:

Ludwig von Baldass; “Pelos problemas que coloca, ele está
absolutamente sozinho. É o grande solitário da História da Arte. É o
pintor que, através da sua arte (que está historicamente à altura da sua época),
quer mais do que os outros. Não aspira a divertir, a instruir ou a educar,
mas a criticar e a profetizar. Apresenta à Humanidade um espelho de duas
faces. Nele, a Humanidade vê refletida, por um lado, a sua necessidade e a
sua perversidade; por outro, as consequências terríveis. Nesse
sentido,…ele pertence aos tempos modernos”.
João Garção; “As visões de Bosch são, por assim dizer, uma síntese de
todas as visões do mundo medieval. A sua concepção de vida é já
universal. Na sua crítica ao Homem, critica a própria humanidade.
Podemos notar que eles veem na obra de Bosch, a preocupação em trazer
o humanamente essencial. Alguns séculos após, ficou provado a coerência
do seu pensamento. Pensava, “já”, a modernidade. Estão aí os
Expressionistas, Surrealistas, Abstratos, Minimalistas, Concretos, Cubistas,
Conceituais e uma infinidade de escolas preocupadas com o interior.
Para mim, Bosch foi o grande revolucionário das artes. Diverso de
Testard, Bosch não aceitava retratar simplesmente a luxuria e a gula, sua
acidez em muito ultrapassa os Fabliaux.

A obra de El Bosco encontra-se ainda desconhecida, fechada como foi
sua vida, estava “só” em sua época, remou contra a maré. Sofria com as
dores da humanidade. É uma obra de compreensão difícil, cerebral. Talvez
agora ao descortinar da história, com ferramentas mais precisas (avanço da
sociologia, linguística, psicologia, filosofia, citas) e um maior fluxo de
liberdade e informação, sem o cunho das censuras da idade das trevas,
poderemos caminhar para sua melhor dissecação e entendimento.
Jeroen Anthoniszoon Van Aken nasceu em s-Hertogenbosch em 02 de
outubro de 1450, adquiriu o nome artístico de Hieronymus Bosch, é
também conhecido como Jeroen Bosch, El Bosco, Bosco dei Bolduc,
Jeronimo di Bolduc. A família viera de Aachen (Aquisgrán) Alemanha, e
estabelecera-se na Holanda no início do século XV. O pai Anthonius, era
pintor e comerciante em s-Hertogenbosch, assim como o avô Jan, três tios,
o irmão Goossen e a irmã Heberta, casou-se em 1480 com Aleyt Van Der
Mervenne, de sua mãe pouco se sabe, parece não ter deixado filhos.

Sua morte:

Faleceu na sua cidade natal em 09 de agosto de 1516. Logo após sua
morte e até o final do século XVII, o extraordinário pintor foi abjurado,
suas obras foram indexadas pela igreja e amaldiçoadas pela classe
dominante. Para seu funeral foi realizado uma cerimônia de grande pompa
na igreja de Nossa Senhora na cidade de s-Hertogenbosch, (como prova a
entrada no registro “Nomina decanorum et praepositorum” desta igreja),
esta cerimônia confirma que Bosch foi muito estimado e considerado um
mestre pintor.

Abaixo fac-símile da ata de entrada de falecimentos da Irmandade de
Nossa Senhora, em s-Hertogenbosch em 1516, Na terceira linha lê-se;
(Obitus fratrum) Hieronimus Aquen alias Bosch, insignis pictor, (usava o
sobrenome Bosch por ser irmão caçula)a nota de falecimento de bosh

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