*UM PENSAR SOBRE AS ELEGIAS ERÓTICAS ROMANAS – O Amor idealizado – por villorblue

TAMBÉM UM OLHAR SOBRE A OBRA “JUBILO, MEMORIA, NOVICIADO DA PAIXÃO”. De Hilda Hilst.

Ao pensarmos o poema exposto na obra literária, “Jubilo, memoria, noviciado da paixão, de Hilda Hilst, conseguiremos entende-lo um pouco melhor se, nos despojarmos de alguns conceitos sobre o amor decorrentes na atualidade. O primeiro destes conceitos refere-se ao amor cortês, o segundo conceito é sobre o amor idealizado, ou o amor romântico.

Até o seculo 12 o único amor aceito socialmente no mundo euro-centralizado, era o amor ao divino. Ao ponto de, ao saber da ocorrência da relação amorosa de algum casal, pessoas eram relacionadas no índex papal, algumas até, sofrendo processos na idade média. O amor cortês gerou vários gêneros da literatura na idade média, o romance foi um destes gêneros. O conceito de amor cortês foi bem difundido em literatura, por Gaston Paris no seculo 19.

O amor romântico teve as primeiras aparições no seculo 19, a partir de então, o amor passou a ser idealizado. Um homem ou uma mulher apostam toda uma idealização no próximo, criam uma expectativa nesta idealização e a partir desta expectativa, passam a viver todos os dias juntos, tentando adequar-se ao outro, ou adequar o outro.

Partindo deste divisor de aguas dos assuntos amorosos, conseguiremos entender melhor acerca das Puellae’s, (Meninas), constantemente cantadas nas elegias romanas. E em especifico a Dionísio no poema de Hilda Hilst. Faremos comentários embasados a partir dos textos das Elegias Eróticas Romanas, de Paul Veyne.

*Porque tu sabes que é de poesia Minha vida secreta.
Os Egos tornam-se escravos do amor, “tu podes celebrar teu triunfo”, Ego diz ao amor, p.88. Quem fazia poesia na época em Roma? Eram homens apenas? As mulheres romanas, na época, eram tratadas como crianças grandes, numa mistura de familiaridade afável e autoridade, dentro deste contexto, é difícil imaginar uma poetisa construindo elegias eróticas, Tibulo compôs “A arte de amar rapazes”.
Catulo na sua peça 70, parece aplicar uma poesia antifeminina na primeira pessoa, onde um Ego misógino fala mal de sua esposa.
Os poetas elegíacos se relacionavam às mulheres, como sendo apenas nomes, nada nelas lhes confere traços individuais, as heroínas nas elegias não tem uma fisionomia identificável, a não ser seus nomes. Eram escritas varias antologias, em varias épocas, por este motivo as Puellaes não tinham uma certa identidade fisiológica.
Poderíamos fazer uma analogia, com os filmes de James Bond hoje em dia, são vários atores que protagonizam o agente 007, todos eles com características físicas e psicológicas diferentes entre si, até a realidade em que vivem é diferente, devido ao passar do tempo e as mudanças politicas e tecnológicas em cada episódio da serie.
Catulo também louvou e cantou Clódia, a cantou sob o nome de Lésbia em versus inesquecíveis. Não existe razões para relacionar o nome de Lésbia a Clódia e à figura dionisíaca do poema, porem, se pensarmos no poema de Hilda Hilst, onde a menina fala na primeira pessoa e se “diz inteira poeta antes de ser mulher”.
Poderíamos pensar que em muitas oportunidades havia uma troca de papeis masculinos e femininos. Poderia ser Lésbia, (uma de suas Puellaes), outras mulheres? E sendo Lésbia, (Clódia), outras mulheres, poderia ser um homem?
Catulo escreveu um poema intitulado “O pardal de Lésbia”, este poema era odiado e admirado por Cicero, (Porque seria odiado e admirado? Ciumes?). Estaria aí a solução de nosso problema? Baseado nos fundamentos de Paul Veyne pode ser que a poetisa é o poeta na nossa história, numa tipica inversão de papeis.

*E que o teu corpo existe porque o meu Sempre existiu cantando.
A objetividade tinha maior valor que a interioridade para os elegíacos, eles escolheram cantar o amor, não imitavam o amor, não escolheram fazer os apaixonados falarem, Paul Veyne refere-se as elegíadas como uma canção ao amor, uma cantata, os apaixonados não falam.
Sob a ficção humorística de uma primeira pessoa, camuflam mal a objetividade da terceira do plural. Ao cantar, a poetisa da vida ao seu Dionísio, (naquela noite), apenas por isso, Dionísio deitado em seu colo lê os poemas da poetisa, neste momento ela também existe através de seus poemas representados por ele, apenas em uma noite. Ao sair, Dionísio leva sua vida, (a vida dela), ele a procurara, ele precisara dela, e isso era coisa rara.

*Meu corpo, Dionísio, É que move o grande corpo teu.
Numa clara demonstração de que a figura de Dionísio refere-se a uma Puellae, o corpo dele é grande, ele é a amante. Seria uma referencia a um corpo masculino obviamente, porem, ela lhe da vida, com sua pena. Ao escrever ela, (no inverso temporal), o faz renascer igual a uma Fênix, nascendo a noite e morrendo ao sol nascer.
Dionísio a deixa, poetisa morta, os poetas falam sobre amor, os romanos acreditavam que o amor era um flagelo, era fruto do ócio, do apolitismo, matava o espirito, Dionísio vai, o poeta morre e ao morrer renasce o governador, o cobrador de impostos, o general, o administrador de província, etc. Dionísio se foi.
Este Dionísio não se importou com as suplicas e com a posição extrema do poeta, porem na noite seguinte, outro Dionísio (ou outra Puellae) virá, talvez quando nascer o dia ele fique, talvez volte e de um ultimo beijo, talvez leia um ultimo poema, quem sabe deitado ao seu colo.
O que todos esperam são as atitudes inesperadas dos Dionísios, isso também é o elã das elegias. “Ao impulso dionisíaco pertence todas as forças que estão presentes na vida sob a forma de êxtase, uma união cósmica com a vida em alegria ou sofrimento,” (nos dizia Nietzsche, comentado em trabalho anterior) Ele vai, (morre), indo, leva consigo o sem fundo proliferante, a partir do qual se produzem todas as formas.
E não adianta as suplicas e as situações extremas, lagrimas, ou se arrastar em corpo.

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